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PT 32 anos: a onça bebeu água e partido luta para se manter no poder

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Análise

Fabio Pontes

 

Lulajorge90901No mês em que comemora sua data de fundação, o Partido dos Trabalhadores vê, passadas três décadas, o enfraquecimento de seus ideais de esquerda, mas fincando-se ao passado na tentativa de manter viva a imagem dos heróis e, assim, dar uma sobrevivida à permanência no governo do Acre. Nesta empreitada também está a tentativa de ressuscitar os inimigos de tempos atrás, para ter o quê combater e com quem se comparar.


O problema é que a luta de poder levou os petistas a se alinharem aos “inimigos”, tornando-se hoje aliados vitais –vide o caso Orleir Cameli. O PT comemora os 32 anos no Acre saindo de uma derrota em Rio Branco em 2010 e com sérias dificuldades de fazer o sucessor de Raimundo Angelim (chefe do Gabinete Civil de Edmundo Pinto, do direitista PDS).


O nascimento do PT se deu a partir da mobilização de trabalhadores das metalúrgicas instalas no ABC Paulista no final da década de 1970 e início de 80. Seu líder principal era Luiz Inácio Lula da Silva. Em pouco tempo a influência de Lula saiu dos pátios das fábricas em São Paulo e se espalhou Brasil afora, chegando até ao inóspito Acre daqueles tempos.


Se no resto do país o embrião do PT estava na luta dos trabalhadores urbanos, no Acre ele se deu a partir do conflito entre seringueiros e os “paulistas”; os novos donos dos seringais que chegavam ao Estado com o pleno apoio do governo militar. Conflitos armados iniciaram-se. Os trabalhadores da floresta passaram a se organizar em sindicatos; o mais notório foi o de Brasileia.


Seu presidente era Wilson Pinheiro, executado numa emboscada de capatazes à sede do sindicato, em 1980. A execução foi o passo dado para a organização política por meio de um partido –neste contexto surge a figura de Lula. O então metalúrgico vai a Brasileia participar de protestos contra a morte de Wilson Pinheiro.


O gole da onça
Em sua fala ele profere: “Chegou a hora de a onça beber água”. A voz rouca de Lula ecoou por toda a Amazônia e ele foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional por incitar a violência. O Partido dos Trabalhadores surge no Acre neste momento de agitação política.


As pequenas cidades passavam a ficar inchadas com a expulsão dos seringueiros da floresta. Grotões de miséria se formaram. Era o ambiente ideal para a esquerda encontrar forças. O PT se organizou em torno de um pequeno grupo de pessoas. A capital era o laboratório.


A democracia estava de volta, os partidos liberados. Estava na hora do PT ir para as urnas. Os primeiros resultados foram pífios. Dinheiro não tinha, o voto era pedido boca a boca. Bingos eram feitos para arrecadar recursos.


Em 1990 os petistas têm a chance de chegar ao Palácio Rio Branco. Os acreanos simpatizam-se com o jovem Jorge Viana, que enfrenta outro jovem: Edmundo Pinto. O PT consegue provocar o segundo turno, mas a direita leva mais uma vez. Em 1992, Jorge Viana disputa a prefeitura de Rio Branco. Vence. É o início da ascensão para o governo.


Sem a figura da reeleição, Jorge Viana coloca Marcos Afonso como seu candidato. Mesmo com alto índice de aprovação, os petistas perdem para a força do PMDB. Em 1994 o PT tinha eleito Marina Silva para o Senado, porém Tião Viana perde para Orleir Cameli. O Senado era o porto-seguro da legenda. Em 1998, nova eleição para o governo.


Palácio Rio Branco aos ratos
O Acre estava aos cacos, com as instituições falidas, salários atrasados e o crime organizando como Estado paralelo. O voto no PT era o voto da esperança de mudança, de tirar o Acre do caos. Jorge Viana praticamente não tem adversários à altura com a direita esfarrapada. Seu irmão Tião Viana era escolhido senador. Jorge obtém a maioria e sobe as escadarias de um Palácio Rio Branco entregue aos ratos –não no sentido figurativo.


O desafio da esquerda não é pouco: a tarefa é reconstruir o Acre. No plano nacional a direita governa com o PSDB de Fernando Henrique Cardoso. Nada que impedisse Viana de ter portas abertas no Palácio do Planalto. Com a ajuda do governo federal foi aos poucos colocando o Acre nos eixos, e o PT seguiu o ritmo.


Jorge Viana governou com mão de ferro. Deu continuidade e concretizou as estratégias de desmantelamento do crime organizado e enfrentou velhos vícios impregnados no funcionalismo público. Em Brasília, Luiz Inácio Lula da Silva subiu as rampas do Planalto.


Sinal de bonança para o Acre. O Brasil acompanhou o ritmo de crescimento mundial: tínhamos tudo o que o mundo necessitava: commodities. Um dragão chamado China estava com fome; o apetite hoje está mais reduzido. O Brasil vendia, mais dólar entrava, o brasileiro consumia e os mais pobres passavam a receber dinheiro do governo.


Todo este cenário favoreceu a política econômica do PT no Acre alcunhada de Florestania. A meta era fazer valer tudo aquilo que os petistas discutiam nos seringais e sindicatos dos trabalhadores rurais, como o de Xapuri comandado por Chico Mendes. Em meio a tudo isso o PT cresceu, aumentou por 100 o número de filiados. O crescimento nas filiações ocorreu mais por interesse em conquista de espaço no governo do que por ideal partidário. Novas lideranças chegaram.


Mas as estrelas puxadoras de voto continuavam os irmãos Viana. O partido conquista a reeleição em 2002, reelege Marina Silva e de quebra manda Geraldo Mesquita Júnior (PSB) para o Senado. Elege quase 10 deputados estaduais e a oposição fica minguada a quatro cadeiras no parlamento.


Em 2004 o PT dá o último tiro de misericórdia na oposição: tira-a da Prefeitura de Rio Branco: desta vez estava tudo dominado. Dois anos depois, nova eleição. Jorge Viana chega ao fim de mandato com índices elevados de aprovação, com força suficiente para eleger um poste sem dificuldades. Assim foi e o ilustre desconhecido Binho Marques o sucede.


Renovar para não falhar
A legenda mantém a hegemonia no Acre e mais à frente Angelim é reeleito. 2010 chega e os petistas estão embalados por Tião Viana. A oposição vai levar um chocolate, diziam eles. Na noite chuvosa de 3 de outubro os votos começam a ser contados: surge um Tião à frente; mas é outro Tião, o Bocalom do PSDB.


A disputa ficava voto a voto. O que é isso? Todos se perguntavam. Cinco minutos era Viana em primeiro lugar, cinco minutos depois, Bocalom. Assim foi até Tião Viana garantir uma ligeira margem de diferença. Por fim, por pouco mais de cinco mil votos o PT não desceu as escadarias do Palácio Rio Branco e dava lugar aos tucanos.


O PT comemora os 32 anos em 2012 apostando no desconhecido Marcus Alexandre para continuar no comando do maior colégio eleitoral do Estado, e fonte importante de votos. O petismo aposta nos índices de aprovação do governo Tião Viana e Raimundo Angelim para emplacar o diretor do Deracre.


Até o momento, entretanto, essa aprovação não é transferida para o candidato do PT, que pode comemorar seus 33 anos sem o domínio de tão importante reduto que é a capital, e, a depender do comportamento da oposição, sem a mesma força política da última década para encarar 2014. Tudo vai depender, como dito por Jorge Viana, da capacidade de reinvenção do petismo.

Última atualização em Dom, 12 de Fevereiro de 2012 11:26