Sombreamento natural desenvolve abelhas

Abelhas precisam de sombra e água fresca. Estudo conduzido pela pesquisadora Maria Teresa Rêgo, da Embrapa Meio-Norte (PI), revelou que o sombreamento das colmeias e a presença de água nas proximidades favorecem o desenvolvimento das colônias e a qualidade do mel. Um dos resultados mais expressivos dessa pesquisa mostrou que o sombreamento natural, com árvores, ajudou na ampliação rápida da área de cria. 

Essa área corresponde ao favo, no qual as crias se desenvolvem. A melhor faixa de temperatura para o desenvolvimento delas é entre 30 e 35 graus Celsius.

“Em uma colônia, as operárias trabalham para manter essa faixa de temperatura ideal às crias, seja aquecendo o ninho, quando ocorrem temperaturas baixas, seja resfriando, no caso de temperaturas elevadas”, explica a cientista. Segundo ela, quanto mais a colônia de abelhas estiver exposta a temperaturas que se distanciam dessa faixa, maior será o trabalho das operárias para manter um clima ideal e estabelecer a termorregulação. O trabalho das operárias no aquecimento ou resfriamento do ninho afeta o desenvolvimento das colônias.

Árvores favorecem o conforto térmico

No experimento, essa área foi mensurada periodicamente por meio de mapeamento dos favos, em colônias expostas a diferentes condições: totalmente ao sol, sob coberturas construídas com palha de babaçu, coberturas de tela sombrite e com a sombra de árvores. O mapeamento registrava as áreas dos favos contendo alimento, mel e pólen, e as crias. As temperaturas internas e externas às colmeias eram registradas semanalmente. Com isso, ficou constatado que o microclima sob a copa das árvores foi beneficiado por uma melhor ventilação, favorecendo o conforto térmico.

Outro resultado importante do trabalho veio da análise da qualidade do mel coletado das colmeias submetidas a essas diferentes condições. Foram feitas análises físico-químicas quanto ao teor de Hidroximetilfurfural (HMF), atividade diastásica e acidez. Todas as análises foram feitas no Laboratório de Controle da Qualidade de produtos Apícolas da Embrapa Meio-Norte, em Teresina.

A pesquisa revelou também outro dado animador. As coberturas construídas com palhas e o sombreamento de árvores favorecem a manutenção de níveis mais baixos de HMF no mel. O HMF é uma molécula que nasce da transformação dos monossacarídeos frutose e glicose. Quanto mais calor, segundo os testes, é mais rápida a conversão dela. Por causa dessa característica, a molécula passou a ser usada como indicador de aquecimento, processamento inadequado e até de adulterações no mel.

A cientista diz que, em mel produzido recentemente, a quantidade de HMF é mínima. Mas com o aquecimento e o tempo de armazenamento do produto, a quantidade da molécula tende a aumentar, comprometendo a qualidade e a aceitação do mel no mercado. Pela legislação brasileira estabelecida na Instrução Normativa número 11, de 2000, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a presença do HMF no mel não pode ser superior a 60 miligramas por quilo.

Calor é desafio para o apicultor

No Nordeste brasileiro, região de clima quente durante quase todo o ano, as altas temperaturas são as grandes adversárias dos apicultores. O intenso calor, no período mais seco, entre os meses de setembro a dezembro, chega a provocar a perda de colônias. As condições ambientais na estiagem não oferecem floradas e empurram as abelhas para um lugar incerto. “Esse é um dos fatores que contribui para a perda das colônias”, aponta a cientista.

Ela recomenda que a instalação das colmeias deve ser sempre à sombra, de forma a evitar o efeito negativo das altas temperaturas sobre o desenvolvimento das colônias e sobre a qualidade do mel, além de proporcionar maior conforto ao apicultor durante o manejo. Outro estudo da cientista aponta para a escolha de árvores que dão um bom nível de sombreamento e que não perdem muitas folhas durante todo o ano. Um exemplo é o cajueiro (Annacardium occidentale).

Água limpa até 500 m de distância

Água limpa e disponível durante todo o ano, segundo a pesquisadora, também é essencial para o bom desempenho das colônias. “As abelhas precisam de água para o seu metabolismo e para regular a temperatura dentro da colmeia, especialmente em regiões de clima quente”, diz a especialista. Quando a temperatura do ninho ultrapassa os 36 graus, as abelhas operárias entram em ação abanando freneticamente as asas e evaporando a água sobre os alvéolos ou pela exposição do líquido na língua.

Pela importância desse recurso natural, Maria Teresa Rêgo recomenda que a distância da fonte de água ao apiário não deve ser superior a 500 metros. “Assim, evita-se gasto energético das abelhas na coleta de água”, esclarece. Ela recomenda também a instalação de bebedouros permanentes, limpos e abastecidos, caso o local não tenha uma fonte de água natural. “É importante que a água seja de boa qualidade, limpa e isenta de contaminações por bactérias, fungos ou protozoários”, ressalta.

A pesquisa foi desenvolvida no município de Castelo do Piauí, a 184 quilômetros ao norte de Teresina, durante as estações chuvosa e seca. Lá, a vegetação é de transição entre Cerrado e Caatinga. O clima é subúmido seco, com déficit hídrico moderado e precipitação anual aproximada de 1.035 milímetros. Vinte e quatro colônias de abelhas Apis mellifera africanizadas foram instaladas em colmeias modelo Langstroth. Rainhas novas, produzidas no apiário experimental da Embrapa, em Teresina, foram introduzidas no experimento. A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) custeou o trabalho.

Nessa mesma linha de pesquisa, o professor Laurielson Chaves Alencar, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), também observou o efeito de temperaturas elevadas na qualidade do mel. Em um experimento conduzido no município de Simplício Mendes, no coração do semiárido piauiense, ele avaliou colmeias instaladas a céu aberto e outras protegidas por sombreamentos naturais e artificiais, como o sombrite, com telas. “Os teores de HMF mais elevados podem ser explicados, em parte, pelo fato de as colmeias desse experimento estarem expostas por um maior período do dia à incidência direta do sol”, concluiu.

Calor pode provocar abandono da colmeia

A busca por um cenário ideal à vida das abelhas em regiões quentes levou também a Universidade Estadual do Piauí (Uespi) a monitorar o comportamento delas nas colmeias de acordo com o clima e a época do ano. Entre 2013 e 2014, um equipamento permitiu que cientistas da Embrapa, professores e estudantes de graduação e pós-graduação monitorassem as condições de temperatura que os insetos enfrentam e que influem no comportamento deles e na produção de mel.

Os resultados, apresentados pelo professor da Uespi Carlos Giovanni Nunes de Carvalho, mostraram que as altas temperaturas, associadas à baixa umidade do ar, realmente comprometem a produtividade de mel, matam e contribuem para a má-formação das crias. Em alguns casos, levam as abelhas a abandonar as colmeias.

Foram registradas fora do equipamento temperaturas máximas que variavam de 32 a 41 graus Celsius. Quando as temperaturas atingiam até 36 graus, as abelhas conseguiam regular a temperatura interna da colmeia. Contudo, acima de 39 graus, segundo os cientistas, facilmente as abelhas desistem da homeostase, que é o processo pelo qual um organismo mantém as condições internas necessárias à vida. Entre três e quatro dias sob forte e calor, os animais abandonam a colmeia.

Os experimentos, conduzidos sempre em períodos de 40 dias, comprovaram que a temperatura ideal interna em uma colmeia em regiões quentes deve variar de 33 a 36 graus Celsius. O equipamento, com o alerta de aquecimento, foi instalado em um apiário em mata fechada, a 210 metros de distância da sede da Embrapa Meio-Norte, na zona norte de Teresina, e monitorou cerca de 30 mil abelhas.

Um medidor foi desenvolvido para a pesquisa

Esse equipamento, ainda sem nome, é um dispositivo de monitoramento formado por sensores de temperatura, baterias, rádio de comunicação, um cartão de memória e um fio conectado à colmeia. O tráfego de informações obedece a um rito simples: os dados são coletados na colmeia, em meio à vegetação; em seguida, repassados via rádio para uma central instalada na Embrapa Meio-Norte e conectada à internet. De lá, as informações ficaram armazenadas em um site que funcionou como um banco de dados.

A construção do dispositivo, estruturado numa caixa plástica, que mede 11 centímetros de largura por 16 centímetros de comprimento, teve um custo estimado de apenas R$ 200,00. A ideia do professor Carvalho, que coordenou o projeto, era substituir o manejo executado pelos pesquisadores, como a instalação manual de termômetros nas colmeias, para que eles pudessem acompanhar o nível de estresse das abelhas sem riscos de acidente.

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